Frank Williams não é um homem de muitas palavras. Nascido em South Shields, Inglaterra, e filho de um oficial da Força Aérea Real, Frank se apaixonou por automobilismo muito cedo. Em 1961 ele tentou seguir carreira como piloto, obtendo inclusive, alguns bons resultados, entretanto percebeu logo que tinha mais talento para dirigir uma equipe do que um carro de corrida.
Depois de trabalhar como mecânico de corridas e fazer algumas incursões como chefe de equipe na F2 e F3, finalmente ele conseguiu chegar na F1 em 1969 com um carro comprado da Brabham, o BT26A. De lá para cá - apesar de muitos tropeços e dificuldades financeiras -, sua equipe foi crescendo e juntamente veio o sucesso, até se tornar uma das maiores vencedoras da F1.
Preso a uma cadeira de rodas desde 1986 devido a um acidente de carro perto de Monte Carlo, Frank até hoje dirige sua equipe com pulso forte, não deixa de ir a nenhum GP e toma todas as decisões mais importantes da equipe.
Pilotos brasileiros também tem história na Williams; Nelson Piquet conseguiu seu terceiro título mundial em 1987 guiando um dos melhores carros que Frank produziu. Ayrton Senna, infelizmente faleceu a bordo de uma Williams em 1994, ano em que era apontado como o franco-favorito para o título mundial, que seria seu quarto.
Atualmente sua equipe vive um jejum de títulos que já dura 11 anos, algo que não acontece desde 1980, ano do primeiro caneco. Nessa entrevista concedida ao site oficial da BMW WilliamsF1 em abril de 2004, Frank fala sobre Ayrton Senna.Pergunta: Você deu a Ayrton o primeiro contato com um carro de F-1, em 1983. O que fez com que você o oferecesse aquilo? Quando foi que ele chamou a sua atenção?
É difícil para alguém na F-1 acompanhar todos os campeonatos de base na Inglaterra, sem falar no continente todo. Portanto, você tende a olhar quem está se saindo sucessivamente bem nos resultados. A lista de Ayrton era impressionante. Encontrei com ele em uma corrida de F-3 e conversamos um pouco. O que impressionava era o fato de ele ser tão determinado a chegar lá. Ele era inteligente, falava um bom inglês, entendia o carro e queria compreender cada vez mais. O caso fez com que eu e Patrick déssemos a ele uma oportunidade de experimentar o carro. Naquela época, meados de 83, hesitamos porque já havíamos assinado com pilotos para 84. Não podíamos testá-lo ou dar uma vaga a ele. No fim, no entanto, a persistência dele compensou e ele demonstrou em apenas 22 voltas em Donington, seu primeiro contato com um carro de GP, quem era. Foi uma performance marcante.
Você pode indicar exatamente no que a performance dele foi tão impressionante?
Nosso piloto de testes era Jonathan Palmer, que era reconhecidamente muito veloz. Ele esteve em Donington na mesma época e fez um tempo que Ayrton conseguiu igualar em 11 voltas, acho, e melhorar em 1s em 22 voltas. Ele veio aos pits, disse: "Acho que há algo errado com os pneus, é melhor parar agora" e foi para casa. Não havia nada de errado com o motor. A maioria dos pilotos quer usar o equipamento o máximo possível porque podem nunca mais conseguir voltar. Acho que Ayrton já sabia de seu destino.
Quando ele se consagrou na F-1, o que fazia dele um piloto especial?
Em testes e na pilotagem ele concentrava sua mente o tempo todo. Também aprendi em muitas negociações que a estratégia de negócios dele era como a de um mestre de xadrez. Ele tinha muitas manobras bem planejadas antes de se engajar. Ele sempre estava pronto e tinha performances impressionantes.
Qual qualidade dele tem relevância comparado com os pilotos de hoje?
Penso que, de várias formas, ele definiu a F-1 atual. Ele foi a primeira pessoa a perceber a importância da absoluta superioridade sobre seus rivais em todos os aspectos do trabalho, seja fisicamente ou em termos de completa dedicação e foco mental. Ele sempre estava pensando. A atenção à absoluta superioridade era algo à frente de seu tempo, eu diria. Ele criou uma nova mentalidade no esporte neste aspecto, algo que você vê Schumacher usando muito hoje.
Senna teve uma dura e longa rivalidade com Prost. Você acha que incidentes como o do Japão 1989 encobriram a reputação dele e prejudicaram o esporte na época?
A rivalidade Senna-Prost foi boa para a F-1. Ela tornou o esporte mais noticiado e atraiu atenção, o que ajudou o lado dos negócios. O incidente no Japão foi ruim para a equipe e para os pilotos, certamente para Ayrton, mas foi uma sensacional notícia. Como um purista, ninguém vai duvidar de seu compromisso com a vitória. Essa não é a essência de um grande esportista? Diria que ele nunca foi perigoso, na minha visão. Alguém que corria riscos, certamente, mas eu sentia que ele aproveitava as oportunidades das corridas que outros não estavam preparados para conseguir.
Como você caracterizaria as diferenças entre Ayrton e o grande rival dele?
Posso ser tachado de herético, mas sempre suspeitei que Alain de fato tivesse uma habilidade maior. Digo isso lembrando que Ayrton ia mais ao limite do que Alain. Mas Alain nunca explorou o extremo tão consistentemente ou de maneira bem sucedida como Ayrton. Alain corria riscos calculados. Ayrton certamente examinava e então guiava, direto ao limite. Ayrton era todo coragem e pilotagem no carro. Apesar das muitas diferenças, eles também tinham semelhanças. Os dois eram pilotos muito cerebrais, grandes "pensadores". Mas as manifestações deste controle mental eram diferentes.
Como você se sentiu no 1º de maio de 1994?
Foi muito difícil assimilar instantaneamente o que havia acontecido. Houve um sentimento de responsabilidade, já que ele foi morto em um carro Williams. A verdadeira gravidade e a sensação de seriedade levaram alguns dias para serem percebidas.
Qual foi o impacto da morte de Senna na F-1?
O esporte de repente ficou com um enorme buraco negro, já que Ayrton foi o melhor e mais marcante da F-1 naquela era. Ele era o campeão do esporte dentro e fora do carro. Sua perda foi um grande choque. Houve uma contagiante sensação de vazio.
O que você consideraria como o maior legado de Senna?
O mais visível é a incrível base de fãs. Ainda agora, as pessoas lembram dele, falam sobre ele. Você ainda vê posters, camisetas. Ayrton não foi um evento passageiro. Ele foi algo muito especial, duradouro. Ele deixou uma impressão considerável entre aqueles que o conheceram, assistiram, competiram ou ouviram falar. Seu alcance foi vasto.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Entrevista com Frank Williams
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